Bem afortunados aqueles que ainda não ouviram a frase “Você é muito legal, tô curtindo ficar contigo, mas é que... nesse momento eu não quero me envolver”. Se você ainda não ouviu, sorte a sua, mas acredite: logo chegará a sua hora.
Isso porque o “não quero me envolver” é o zeitgeist dos relacionamentos contemporâneos. E não apenas na faixa etária dos 20 e poucos anos – segundo minha terapeuta, mulheres de todas as idades fazem a mesma reclamação em seu consultório. Assim, fui levada a questionar: por que os homens não querem mais se envolver? E o que significa não se envolver? Como seria o relacionamento “não envolvido”?
Durante muitos anos toda a sexualidade feminina se organizou em volta do casamento: a mulher deveria manter-se virgem até as núpcias (o Código Civil inclusive permitia a anulação do casamento caso o homem desconfiasse que sua noiva havia sido deflorada por outro) e, antes disso, devia comportar-se adequadamente, dando-se ao respeito. O modelo da moça de família reinava a moral dos anos 1950 e aquelas que se permitiam intimidades com rapazes eram classificadas pelas revistas da época como moças levianas, aquelas com quem os rapazes namoravam, mas não casavam. As moças que tinham a intenção de casar e que cometessem deslizes, não ficariam impunes.
“Poderiam, por exemplo, ser muito solicitadas pelos rapazes, ter muitos admiradores, mas não casariam, 'pois o casamento é para a vida toda, e nenhum homem deseja que a mãe de seus filhos seja apontada como uma doidivana’ ”.
(Jornal das Moças, 1955)
Passaram-se os anos, a Revolução Sexual veio e foi e agora as meninas pra casar também transam. E também se sustentam, sem mais a obrigatoriedade de encontrar um marido, contribuindo para a construção de um relacionamento entre iguais, baseado na afinidade e afetividade, não mais na dependência. No entanto, parece-me que homens e mulheres se desencontraram no meio do caminho. As mulheres continuam querendo aquilo que sempre quiseram: amor. Enquanto isso, os homens parecem querer apenas a rotatividade. Talvez as mulheres também andem por aí dizendo que não querem se envolver, não sei. Mas desculpe-me: para mim esse “não quero me envolver” é medo. Medo do que acontece quando as coisas dão certo, medo de ser feliz ao lado de uma pessoa. E te pergunto: em troca do que?
Claro, nem todo sexo bom é pra casar, nem toda pessoa que te oferece uma boa conversa é boa de cama, e o cara bom de cama talvez não te respeite ou dê o carinho que você mereça.
Mas fica aqui o convite: dê uma chance para o envolvimento – você até corre o risco de ser feliz.
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sexta-feira, 16 de abril de 2010
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