terça-feira, 3 de agosto de 2010

Uma História de Tanto Amor

"Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. A galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longíquas claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua arte. Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha.

Quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brincar. Então pedia um remédio a uma tia. E a tia : "Você não tem coisa nenhuma no fígado". Então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. A menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contágios misteriosos. Era quase inútil dar o remédio porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. E o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. Não lhe ocorreu dar um desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia não eram usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de cambraia.

A tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café - e vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. A menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie. A menina morava no campo e não havia farmácia perto para ela consultar.

Outro inferno de dificuldade era quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina não entendera que engordá-las seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeçava o trabalho mais difícil: o de abrir-lhes o bico. A menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção. Sem notar a seriedade cômica que a coisa toda tomava:
- Mas é o galo, que é um nervoso, é quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!

Um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia informou:
- Nós comemos Petronilha.

A menina era uma criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe:
- Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.

Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frágil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das minas-gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manhã do dia seguinte Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.

Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.
O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. As galinhas pareciam ter uma pré-ciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo.

Mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens."

Clarice Lispector

terça-feira, 20 de julho de 2010

Um compilado dos melhores conselhos de nossas amigas de SATC

'If we perpetually gave men blow jobs we could rule the world." - Samantha

"Think about it. If you are single, after graduation there isn’t one occasion where people celebrate you." -Carrie

"Oh please! There's always a contest with an ex. It's called 'who will die miserable.'" - Samantha

"Maybe the best any of us can do is not quit, play the hand we’ve been dealt, and accessorize what we’ve got." — Carrie

"How does it happen that four such smart women have nothing to talk about but boyfriends? It’s like 7th grade with bank accounts." -Miranda

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Um Segredo

Pelo que vi de filmes e li de orelhas do famoso “O Segredo”, o que importa é querer muito alguma coisa. Mas muito. Querer mais que o Corinthians quer a Libertadores, querer mais que todos os outros times do Brasil que este dia nunca chegue para o bem geral do sarro. É o “querer” é o que tem a força nessa história toda. É só querer que o universo, tão bonito e misterioso como capas de CDs nos mostram, conspira a seu favor. Queira bastante que ele arranja o blind date entre a sorte e o mais preparado para conhecê-la: você.

A história toda se resume na Lei da Atração. Segundo o livro, você emite sinais para o breu do Universo pontilhado de estrelas, que eles atraem tudo de volta como um imã Acme, daqueles em forma de U que o Coyote usa em armadilhas para o Papa-Léguas.

O raciocínio da coisa é que basicamente tudo é uma questão de pensar positivo. Ou seja, ter confiança. Oras, desde que o mundo é mundo a confiança é o que rege o sucesso de toda e qualquer pessoa. Da entrevista de emprego ao restaurante japonês de sexta a noite, confiar no taco e evitar gagueiras assina contratos e contas para a noite se apagar à meia luz.

O fato é que acreditar muito em algo ou em si não é suficiente para colocar o Porsches em garagens ou aquela morena no seu banco do carona. Mas ajuda a contribuir para que este dia chegue, como tijolos assentados aos poucos em uma parede. Uma oportunidade de emprego bem aproveitada, um galanteio bem acertado - pequenos passos que encurtam os minutos para que o esperado dia que zera a contagem até o próximo.

Penso que o propósito do “O Segredo” se mostre eficaz para coisas mais pontuais, como querer o carrão ou o sorriso que te derrete emoldurado por longos cabelos lisos.

Mas e para Felicidade? Isso mesmo, o que todos procuram e querem mais que lasanha ou qualquer outro prato que venha fumegando enquanto se saliva. O fato que felicidade verdadeira, meu amigo, não é suficiente para um mero querer muito.

Felicidade é nada mais que o resultado azul e positivo da conta entre tudo que acontece na sua vida. Pensar um isolado “quero ser feliz” todas as manhãs da sua vida só tira seu foco de todos os pontos que você precisa para ter esse resultado.

Entre todos os itens que entram na conta da felicidade, o numeral “pessoas” tem peso fundamental. As pessoas que você divide frações de seu projeto de vida, sejam amigos ou amores, são determinantes para uma conta positiva.

E começa por cada um. Curtir sua companhia, rir de si mesmo, cantar no chuveiro repetindo besteiras ditas é o primeiro passo para a Lasanha que todos procuram. Dá sabor à presença das pessoas que você escolhe para estar perto. Abre a porta para quem chega trazer o azeite, a receita especial para o molho de tomate.

Tudo que é preciso ser feito é tentar ao máximo se cercar de pessoas que te fazem bem. O raciocínio é simples: se te provoca um sorriso quando vem qualquer lembrança, mantenha por perto. Mesmo que subtraia às vezes, a alegria indescritível de fechar o balanço no azul não é segredo para ninguém.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A bailarina

Quando ela entrou, o ar mudou.
Ela dançava em movimentos amplos e contínuos.
Conseguia ser leve e intensa ao mesmo tempo, diferente dos outros bailarinos.
Ela não fazia esforço nem olhava para nós, ela era silêncio.
Mas, por dentro, ela era algo absolutamente incompreensível.
Seu olhar nos atravessava, não nos via. Ela olhava para si.
Havia barulho ali dentro, não sei se de grito, amor ou dor.
Nem consegui prestar mais atenção nos outros depois que ela entrou.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Como é bom estar de volta ao rock'n'roll

Aproveitando a onda do post anterior, da Rê Asato, também gostaria de compartilhar uma experiência que me foi muito inspiradora, também relacionada a música mas de um jeito diferente. Esse final de semana fiz uma coisa que não fazia há algum tempo: ir num show underground, onde prestigiei o lançamento do clipe da Ambient, que tem minha "irmã" Babi Kenya no vocal. Cara, como eu gosto desse rolê, da energia que só aquele tanto de gente junta por amor à música e às bandas conseguem proporcionar. That stuff is rock'n'roll.

Rock'n'roll que não é apenas música, mas aquele sentimento cru que só um show num lugar pequeno, quente e cheio de gente - todos curtindo pra caralho -, poderia trazer. Uma energia pulsante que é comum ao rock em todos os seus sub-gêneros, de um show do Dance of Days, passando pelo furioso Satanic Surfers até à revolta straight edge de uma Verdurada. É preciso ter sangue quente para o rock'n'roll.

Então, um viva pro cliple da Ambient e pra Babi Kenya, pela volta aos inferninhos!




Show bom, som enérgico. Os guris tocam bem e a cantora é muito carismática! ;D



@ambientrock


quinta-feira, 29 de abril de 2010

Inspiração

Essa semana aconteceu o lançamento do CD da Geração SP, uma galera jovem e talentosa envolvida com música e teatro na cidade de São Paulo.

Acompanhei de longe o projeto e estou muito feliz por ver que fazer acontecer é possível, ainda mais quando seus amigos são pessoas ótimas e talentosas.

Eu convivo com muita gente FODA! e não quero perder mais tempo nessa vida.

Fiquei absolutamente inspirada ao ver essas pessoas de universos tão próximos ao meu realizando grandes feitos.

Ouçam o CD e saibam mais sobre o projeto do Geração SP.

Espero que sirva de inspiração para vocês também!

Beijos,

Rê Asato

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Teria a revolução sexual sido um tiro no pé?

Bem afortunados aqueles que ainda não ouviram a frase “Você é muito legal, tô curtindo ficar contigo, mas é que... nesse momento eu não quero me envolver”. Se você ainda não ouviu, sorte a sua, mas acredite: logo chegará a sua hora.

Isso porque o “não quero me envolver” é o zeitgeist dos relacionamentos contemporâneos. E não apenas na faixa etária dos 20 e poucos anos – segundo minha terapeuta, mulheres de todas as idades fazem a mesma reclamação em seu consultório. Assim, fui levada a questionar: por que os homens não querem mais se envolver? E o que significa não se envolver? Como seria o relacionamento “não envolvido”?

Durante muitos anos toda a sexualidade feminina se organizou em volta do casamento: a mulher deveria manter-se virgem até as núpcias (o Código Civil inclusive permitia a anulação do casamento caso o homem desconfiasse que sua noiva havia sido deflorada por outro) e, antes disso, devia comportar-se adequadamente, dando-se ao respeito. O modelo da moça de família reinava a moral dos anos 1950 e aquelas que se permitiam intimidades com rapazes eram classificadas pelas revistas da época como moças levianas, aquelas com quem os rapazes namoravam, mas não casavam. As moças que tinham a intenção de casar e que cometessem deslizes, não ficariam impunes.

“Poderiam, por exemplo, ser muito solicitadas pelos rapazes, ter muitos admiradores, mas não casariam, 'pois o casamento é para a vida toda, e nenhum homem deseja que a mãe de seus filhos seja apontada como uma doidivana’ ”.
(Jornal das Moças, 1955)

Passaram-se os anos, a Revolução Sexual veio e foi e agora as meninas pra casar também transam. E também se sustentam, sem mais a obrigatoriedade de encontrar um marido, contribuindo para a construção de um relacionamento entre iguais, baseado na afinidade e afetividade, não mais na dependência. No entanto, parece-me que homens e mulheres se desencontraram no meio do caminho. As mulheres continuam querendo aquilo que sempre quiseram: amor. Enquanto isso, os homens parecem querer apenas a rotatividade. Talvez as mulheres também andem por aí dizendo que não querem se envolver, não sei. Mas desculpe-me: para mim esse “não quero me envolver” é medo. Medo do que acontece quando as coisas dão certo, medo de ser feliz ao lado de uma pessoa. E te pergunto: em troca do que?

Claro, nem todo sexo bom é pra casar, nem toda pessoa que te oferece uma boa conversa é boa de cama, e o cara bom de cama talvez não te respeite ou dê o carinho que você mereça.

Mas fica aqui o convite: dê uma chance para o envolvimento – você até corre o risco de ser feliz.